Cronologia: A erradicação do poliovírus selvagem na Região Africana

Na primeira década do século 1900s, a poliomielite é uma das doenças da infância mais temidas nas nações industrializadas, para a qual não existe cura.


Ocorrem regularmente epidemias de poliomielite na América do Norte e na Europa.


Acredita-se que a poliomielite apenas afecta os países industrializados e não é considerada uma ‘doença tropical’.


No entanto, em 1950, há um crescente reconhecimento de que a poliomielite também afecta o mundo ‘em desenvolvimento’.

1916

Um enorme surto de poliomielite nos EUA deixa 27 000 pessoas paralisadas e mata 6000, o que desencadeia uma vaga de investigação. 

1918

É reconhecida a primeira epidemia de poliomielite na África do Sul, após o regresso dos soldados do Médio Oriente no fim da Primeira Guerra Mundial.

1929

O ‘pulmão de aço’ – um aparelho que auxilia os doentes paralisados com poliomielite a respirar  – passar a ser amplamente utilizado na Europa e nos EUA. 

© OMS

1948

O maior surto de poliomielite na África do Sul, com 3000 casos e 200 mortes, catalisa uma enorme campanha de angariação de fundos. A primeira fundação para a investigação da poliomielite em África, a Fundação para a Investigação da Poliomielite, é inaugurada em 1950.

© Poliomyelitis Research Foundation (PRF)

1949-54

Verificam-se grandes epidemias de poliomielite na África do Sul, África Equatorial Francesa, Angola, República Democrática do Congo (RDC) (conhecido na altura como Congo Belga), Quénia, Zimbabué (conhecido na altura como Rodésia) e Uganda. 

© OMS

Estima-se que na década de 1950, em todo o mundo, 600 000 pessoas ficam paralisadas anualmente. 

 

O desenvolvimento da vacina contra a poliomielite e a sua introdução generalizada em todos os países industrializados leva a um forte decréscimo na incidência da poliomielite.

 

Os casos de poliomielite aumentam em África. Em 1955, o Dr. James Gear, Director da Fundação para a Investigação da Poliomielite na África do Sul, diz, “É óbvio que a doença é endémica em todos os países de África.”

1952-56

A Argélia é fustigada por vários surtos de poliomielite relacionados com os deslocamentos em massa causados pela Luta pela Libertação. Em 1955, o Hospital de Doenças Infecciosas de Argel cria um serviço da poliomielite.

© Departamento de Prevenção do Ministério da Saúde da Argélia

1953

Em África, 18 países notificam casos de poliomielite à OMS, que cria uma Comissão de Peritos Mundiais da poliomielite e designa uma rede de laboratórios regionais da OMS para a poliomielite.

© OMS

1954

O Dr. Jonas Salk desenvolve a primeira vacina contra a poliomielite, uma vacina injectável denominada ‘vacina inactivada contra a poliomielite’ (VIP) que, em 1955, é testada em mais de um milhão de crianças nos EUA. 

© OMS

1956

O Dr. Albert Sabin desenvolve a vacina oral contra a poliomielite (VOP) que, em 1961, é usada em campanhas de vacinação em massa nos EUA.

© OMS

1957

A OMS recomenda o uso da VOP em ensaios de campo durante uma reunião em que participaram os maiores especialistas do mundo em poliomielite. 

©OMS

1961-62

Segundo a OMS e outras fontes, 24 de 34 países africanos registam um aumento nos casos de poliomielite. 

© OMS

1962

A VOP torna-se a ‘vacina de eleição’ na maior parte do mundo, porque impede a transmissão entre pessoas e é mais fácil e menos cara de administrar do que a vacina injectável. 

© OMS

Em meados da década de 1970, apenas alguns países africanos levam a cabo actividades de vacinação.

 

A vacinação de rotina, incluindo a vacina contra a poliomielite, é introduzida em todo o mundo, mas muitas pessoas ainda não são abrangidas pela vacina contra a poliomielite.

1974

Estima-se que ocorram anualmente em África 168 000 casos de poliomielite – muito mais do que se suspeitava inicialmente. Estes dados baseiam-se em inquéritos sobre a prevalência do coxeio realizados em 14 países africanos, com início no Gana.

© OMS

1976

É criado o Programa Alargado de Vacinação (PAV) para levar as vacinas às crianças do mundo inteiro.

© GPEI

1976

Abrem na África do Sul os Laboratórios da Fundação para a Investigação da Poliomielite, que mais tarde se tornaram o Instituto Nacional de Virologia.

© Poliomyelitis Research Foundation (PRF)

1979

Os EUA são oficialmente declarados livres do poliovírus selvagem após amplas campanhas de vacinação em todo o país. 

O êxito na erradicação da poliomielite nos EUA e noutros países desenvolvidos serve de inspiração para a ideia da erradicação da doença a nível mundial.

 

No final da década de 1980, a maioria dos países africanos vacina as crianças contra a poliomielite, como parte da vacinação de rotina.

1985

A Rotary International lança o fundo ‘Polio Plus’, um compromisso a 20 anos de angariação de fundos para proteger todas as crianças da poliomielite. Os representantes da Rotary em todo o mundo começam a angariar fundos. 

© Rotary

1988

A Assembleia Mundial da Saúde aprova uma resolução para erradicar a poliomielite em todo o mundo até ao ano 2000. É lançada a Iniciativa Mundial de Erradicação da Poliomielite (GPEI)  – uma das maiores iniciativas de saúde pública da história. 

© OMS

1989

O Comité Regional da OMS para a África adopta a resolução de 1988 da Assembleia Mundial da Saúde e aprova o objectivo de erradicar a poliomielite do continente.

© OMS

Com um total estimado de 75 000 crianças paralisadas por ano devido à poliomielite, os países africanos assumem o compromisso de erradicar a doença e começar a implementar seriamente estratégias de erradicação. 

 

A GPEI faz enormes investimentos em formação, infra-estruturas e equipamento de vacinação, vigilância da doença, gestão dos dados e coordenação de alto nível em toda a África.

 

As infra-estruturas criadas para combater a poliomielite começam a ser usadas para apoiar os esforços na luta contra outras doenças no continente.

1996

Os líderes da Organização da Unidade Africana (OUA) adoptam a Declaração de Yaoundé para a erradicação da poliomielite em África. Nelson Mandela lança a influente campanha ‘Kick Polio out of Africa’ com a Rotary International, que é apoiada por chefes de Estado, celebridades africanas, jogadores de futebol e filantropos.

© Cortesia do Rotary
International, com a autorização da Fundação Nelson Mandela

1996

Camarões, Côte d’Ivoire, Quénia, Tanzânia e Uganda levam a cabo as primeiras Jornadas Nacionais de Vacinação especificamente para a poliomielite na Região Africana. Até 2000, quase 30 países africanos lançam as Jornadas Nacionais de Vacinação.

© Sam Okiror

1998

É instituída a Comissão Regional Africana de Certificação (ARCC) da Erradicação da Poliomielite para supervisionar de forma independente a certificação e contenção da poliomielite nos 47 Estados-Membros. 

© ARCC

1998

Após grandes surtos de doenças na África Ocidental, os fundos e os recursos humanos para a luta contra a poliomielite são usados para intensificar a vigilância de outras doenças transmissíveis, através da estratégia de Vigilância e Resposta Integrada às Doenças (VRID). São formados milhares de responsáveis pela vigilância da poliomielite para monitorizarem até nove outras doenças.

© UNICEF

1998

O último caso de poliovírus selvagem do tipo 2 na Região Africana é notificado na Nigéria.

1999

São realizadas na Nigéria as primeiras campanhas da poliomielite em locais fixos da Região Africana, alcançando 40% mais crianças do que através da vacinação de rotina, o que faz desta uma estratégia essencial para a erradicação da doença. 

© OMS

1999

O Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, negoceia o primeiro acordo de cessar-fogo entre as partes em conflito na RDC, permitindo que dez milhões de crianças com menos de cinco anos sejam vacinadas contra a poliomielite durante um período de três meses.

© GPEI

1999

Um enorme surto de poliomielite de tipo 3 ocorre em Luanda, Angola, depois de 800 000 pessoas se deslocarem internamente para procurarem refúgio devido ao conflito na República Democrática do Congo. Um milhão de crianças com menos de cinco anos de idade são vacinadas

© UNICEF

O número de casos anuais de poliovírus selvagem diminui para menos de 1000 a nível mundial, graças às campanhas de vacinação em massa contra a poliomielite.

 

Quase toda a África Oriental e Austral consegue interromper a transmissão do poliovírus selvagem endémico. Agora, o poliovírus selvagem só é endémico na Nigéria e no Níger. 

 

Há um enorme optimismo de que a poliomielite possa ser erradicada em África, mas o programa de combate à poliomielite enfrenta grandes desafios. Surtos recorrentes na Nigéria e casos importados em Angola afectam outros países africanos. 

 

24 países são declarados como livres do poliovírus selvagem.

2000

São realizadas as primeiras campanhas sincronizadas envolvendo 17 países da África Ocidental e Central. Dezenas de milhares de voluntários vacinam mais de 76 milhões de crianças. 

© UNICEF

2001

O primeiro caso de poliovírus circulante do tipo 1 derivado da vacina (cVPDV) é detectado em Madagáscar, país onde o último caso de poliovírus selvagem tinha sido registado em Outubro de 1997. 

2003

Um boicote à vacina contra a poliomielite no norte da Nigéria por causa de dúvidas relativamente à segurança da vacina resulta num surto de poliomielite que, até 2008, se propaga para 20 países. Em resposta, a África organiza uma extensa campanha sincronizada envolvendo 23 países e alcançando 80 milhões de crianças com menos de cinco anos. 

© OMS

2005

Um surto de poliovírus selvagem é declarado no Corno de África e no Iémen, com mais de 700 casos. Campanhas de vacinação de emergência em 8 países, incluindo Etiópia e Quénia, alcançam mais de 34 milhões de crianças. 

© UNICEF

2005

Importações de poliovírus selvagem do tipo 1 da Índia causam surtos em Lunda, Angola. Ocorrem outras importações no país em 2008 e 2009, assim como uma propagação transfronteiriça para a Namíbia em 2006.

© Ministério da Saúde da Namíbia

2007

Depois de ter estado livre da poliomielite desde de 2004, a RDC regista 54 casos de poliovírus selvagem do tipo 1 em quatro províncias.  

© UNICEF

2007

Na Nigéria, as Jornadas de Vacinação ‘Plus’ envolvem as comunidades locais, oferecendo complementos, incluindo outros serviços de saúde e produtos básicos.

© OMS

2008

A Assembleia Mundial da Saúde lança um apelo à Nigéria para que responda com celeridade a um surto de poliomielite que, até 2010, afecta 15 países na África Ocidental e Central. São realizadas campanhas transfronteiriças sincronizadas de vacinação em toda a Região. Mais de 400,000 voluntários e profissionais de saúde vacinam 85 milhões de crianças.

© Adeniyi-Jones Jidef 

2008

Quando a crise económica mundial afecta o financiamento da saúde em África, as equipas de gestão dos dados sobre a poliomielite preenchem a lacuna em termos da gestão dos dados sobre o paludismo e o VIH/SIDA.

A recta final para a certificação é marcada por grandes retrocessos, bem como pela introdução de várias estratégias e tecnologias inovadoras.   

 

Um declínio nos níveis de imunidade nas populações de muitos países africanos coloca as comunidades em risco de surtos de poliomielite. 

 

Após ter sido retirada, em 2015, da lista dos países onde a poliomielite é endémica, a Nigéria detecta novos casos no Estado de Borno, que atravessa uma situação de insegurança, em 2016. Um enorme esforço envidado a nível nacional permite que o país elimine o poliovírus selvagem de uma vez por todas. 

 

23 países são declarados como livres do poliovírus selvagem.

 

Em 25 de Agosto de 2020, a Região Africana da OMS torna-se a quinta região da OMS a erradicar os poliovírus selvagens.

 

Apesar desta extraordinária conquista de saúde pública, a luta contra os poliovírus não acabou. 

 

Mais de uma dúzia de países em África continuam a ser afectados pelos cVDPV e a GPEI e os governos voltam a assumir o compromisso de alcançar todas as crianças com as vacinas contra a poliomielite.

2011

A vigilância ambiental do poliovírus é feita pela primeira vez na Nigéria, tendo sido posteriormente expandida para 300 locais em 26 países da Região Africana.

© Andrew Esiebo/OMS

2012

A Nigéria cria um Centro de Operações de Emergência e lança um plano nacional de emergência, impulsionando os progressos. Neste momento, a Nigéria regista 50% dos casos de poliovírus selvagem que ocorrem no mundo.

© Fundação Bill e Melinda Gates

2012

O último caso de poliovírus selvagem do tipo 3 na Região Africana é notificado na Nigéria. 

2013

Após um surto de poliovírus selvagem do tipo 1 na Somália propagar-se para a Etiópia e o Quénia, são organizadas campanhas de vacinação em grande escala em todos os países do Corno de África.

© OMS

2014

A OMS declara os poliovírus selvagens e os cVPDV uma emergência de saúde pública de dimensão internacional (ESPDI), impulsionando uma resposta internacional. 

© UNICEF

2014

As infra-estruturas e a tecnologia para o combate à poliomielite são usadas para a detecção de casos e o rastreio de contactos de casos de Ébola na Nigéria.

2015

É declarada a erradicação do poliovírus selvagem do tipo 2 a nível mundial após o último caso ter sido registado na Índia em 1999.

© GPEI

2016

Após quase três anos sem casos, são detectados quatro casos de poliovírus selvagem do tipo 1 no norte da Nigéria perto do lago Chade depois de um grupo armado ter impedido a vacinação contra a poliomielite. Uma grande resposta de emergência envolvendo vários países da região do Lago Chade visa 45 milhões de crianças na Nigéria, Níger, Camarões, Chade e República Centro-Africana. A Nigéria volta à lista dos países onde a poliomielite é endémica.

© UN Foundation/Christine McNab

2016

Uma avaliação externa de oito países africanos conclui que o programa de luta contra a poliomielite trouxe enormes benefícios aos sistemas de saúde africanos, incluindo em termos da vigilância das doenças, da vacinação de rotina e da resposta a surtos.

© Rotary International

2016

155 países e territórios, incluindo todos os africanos, substituem a VOP trivalente pela VOP bivalente, que não contém a estirpe do tipo 2 erradicada.

© OMS/Rotary

2017

A RDC regista uma vaga de surtos de cVDPV, que deixa 29 crianças paralisadas. É declarada uma emergência de saúde pública nacional. 

© UNICEF

2018

Há um aumento do número de casos registados de cVDPV em todas as regiões de África. São notificados casos em 12 países com níveis baixos de cobertura vacinal de rotina e suplementar.

© Equipa de intervenção rápida da GPEI

2019

O Escritório Regional da OMS para a África cria uma Equipa de Resposta Rápida para coordenar as respostas aos surtos de cVDPV.

© Equipa de intervenção rápida da GPEI

2019

A Nigéria comemora três anos desde o seu último caso de poliovírus selvagem, o que desencadeia o processo de certificação da Região Africana como livre de poliovírus selvagem.

© Andrew Esiebo

2019

É certificada a erradicação do poliovírus selvagem do tipo 3 a nível mundial.

2020

A Região Africana da OMS é certificada pela ARCC como tendo erradicado o poliovírus selvagem  após terem passado mais de quatro anos sem se registar qualquer caso de poliovírus selvagem, tendo sido feita a vigilância da doença segundo as normas de certificação. 

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