As cinco principais soluções de índole tecnológica que ajudaram a erradicar o poliovírus selvagem na Região Africana

Há dez anos, os profissionais de saúde e os vacinadores voluntários estavam dependentes de mapas elaborados à mão e da memória para conseguir chegar a cada criança.

 

Hoje em dia, o programa africano de erradicação da poliomielite transformou-se mercê da tecnologia e inovação. Os novos sistemas conferiram ainda ao programa um nível de prestação de contas sem precedentes, garantindo padrões elevados e avanços orientados pelos dados. Essas ferramentas desempenharam um papel essencial para acelerar os progressos a favor da erradicação da poliomielite.

 

Aqui ficam cinco das inovações tecnológicas mais importantes que nasceram do programa da poliomielite:

1. Mapeamento SIG – gestão de dados recorrendo a tecnologia móvel

A tecnologia do sistema de informação geográfica (SIG) combina dispositivos móveis e software de mapeamento para colher, analisar e apresentar dados. 

 

Embora o software SIG venha sendo utilizado há mais de 2 décadas para analisar dados sobre saúde e para produzir mapas, “nenhum outro programa tem recorrido ao SIG de forma tão estruturada como o programa da poliomielite”, refere Kebba Touray, director do SIG no Programa de Erradicação da Poliomielite junto do Escritório Regional da OMS para a África (OMS AFRO). 

 

Usado em primeiro lugar pelo programa da poliomielite no norte da Nigéria após um pico de casos de poliomielite em 2012, o SIG permitiu às equipas que trabalham na poliomielite usar os seus telemóveis para atingir zonas mal abrangidas e administrar vacinas contra a poliomielite. 

 

 

Contudo, esses sistemas não se cingem à erradicação da poliomielite. Quando em Agosto de 2018 despoletou um surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC), a escassas centenas de quilómetros do Uganda, os dados de vigilância do SIG, estabelecidos para a poliomielite, indicaram a localização de casos bem como padrões de circulação da população. O que permitiu aos delegados de saúde definir precisamente as 24 áreas sanitárias de maior risco ao longo dos 800 quilómetros fronteiriços. Em virtude disso, o Uganda conseguiu precaver-se contra um surto de Ébola em grande escala. 

Um responsável pela vigilância da poliomielite descarrega dados dos telemóveis de vacinadores ao fim do dia da campanha de vacinação da poliomielite em Jere, na Nigéria, 2020. ©️ Andrew Esiebo/OMS

As aplicações do SIG são utilizadas em conjunto com mapas tradicionais como este, mostrando zonas residenciais que são alvo de vacinação contra a poliomielite, em Hargeisa, na Nigéria, 2019. ©️ OMS

Um vacinador acede à tecnologia móvel AVADAR no seu telemóvel, 2020. ©️ Andrew Esiebo/OMS

A equipa da OMS forma voluntários da comunidade bem como profissionais de saúde sobre a utilização da AVADAR em Gurai, no Sudão do Sul, 2019. © OMS/AFRO

2. AVADAR – descobrir e comunicar casos de paralisia

Os cuidados formais de saúde são esparsos em certas zonas de África – onde a insegurança grassa ou onde o sistema de saúde é débil tendo uma abrangência limitada. Nalgumas zonas, perto de 10 mil elementos da comunidade habilitados seguiram uma formação no intuito de utilizar a aplicação de Detecção Auto-Visual da PFA e Comunicação (AVADAR, do inglês Auto-Visual AFP Detection and Reporting). A rede estende-se por dez países da Região Africana. Desde curandeiros tradicionais a líderes de povoados, esses elementos da comunidade comunicam casos cujos sintomas são parecidos com os da poliomielite aos Ministérios da Saúde e à OMS usando uma tecnologia baseada em SMS a partir dos seus telemóveis. A aplicação começou por ser ensaiada em 2016 na Nigéria, onde a insegurança criou manchas ocultas na vigilância da poliomielite. Graças ao financiamento da Fundação Bill e Melinda Gates, a aplicação AVADAR pôde ser ampliada a outras zonas do país.

 

Actualmente a AVADAR também tem sido utilizada para descobrir e comunicar casos de febre de Lassa, meningite cerebrospinal e febre amarela, entre outras. 

 

 

Durante a pandemia de COVID-19, o valor da tecnologia assim como a vasta rede comunitária AVADAR revelou-se inestimável. A OMS mantém o contacto regular com os elementos da comunidade, mandando vídeos explicativos para os ajudar a identificar e comunicar potenciais casos de COVID-19, o que significa que os delegados de saúde por toda a África estão melhor apetrechados para detectar eventuais surtos e ter uma incidência sobre zonas críticas.

3. e-SURV – vigilância electrónica para fazer a monitorização em tempo real de actividades no terreno

Como acontecia com o mapas, a recolha de dados destinados à vigilância das doenças era integralmente feita em papel. Quando da comunicação de um caso suspeito de poliomielite, os profissionais de saúde e os voluntários da comunidade preenchiam formulários, que passavam por várias mãos antes de chegarem, frequentemente ao fim de dias, ao delegado de saúde a quem cabia processar a informação e tomar medidas. Não só este procedimento era lento como, amiúde, implicava uma duplicação considerável de esforços.

 

“Havia muito pessoal afecto à poliomielite que visitava estabelecimentos de saúde e indagava as mesmas coisas,” diz o Dr. Ticha Muluh, responsável pela vigilância da poliomielite no Programa de Erradicação da Poliomielite junto da OMS AFRO. “Precisávamos de um sistema capaz de monitorizar e visualizar em tempo real, num servidor partilhado, quem foi aonde.”

 

 

Para dar resposta a esse desafio, os responsáveis pela vigilância da poliomielite em Maiduguri, na Nigéria, elaboraram uma pequena lista de verificação, que acabou por se transformar numa plataforma electrónica conhecida pelo nome de e-SURV. A ferramenta é composta por um formulário electrónico ao qual se acede através de uma aplicação móvel que também regista os movimentos do pessoal por uma questão de responsabilização. Implantada em 44 países de África, hoje o e-SURV é utilizado para além da erradicação da poliomielite para monitorizar a vacinação de rotina e identificar surtos de doença que ocorrem numa dada zona.

Utilizando o e-SURV, as conversas com os profissionais de saúde no terreno guiam-se por um simples questionário que melhora a qualidade e a coerência da recolha de dados, 2019. © OMS/Darcy Levison

A Dr.ª Adele Daleke Lisi Aluma conversa com Robert acerca dos sintomas do sarampo, da poliomielite e outras doenças preveníveis pela vacinação. As suas respostas são gravadas através do e-SURV e transmitidas a uma base de dados central. © OMS/Darcy Levison

4. Modelos digitais da elevação – melhorar a vigilância ambiental 

Se por um lado a vigilância tradicional do vírus da poliomielite assenta na identificação e análise de crianças com paralisia, por outro analisar águas residuais e matéria fecal ao longo das condutas de saneamento pode servir como um sistema de alerta precoce face à presença de poliovírus. A vigilância ambiental do vírus da poliomielite foi utilizada pela primeira vez no Paquistão e no Egipto, hoje é aplicada em 32 países da Região Africana, sendo regularmente enviadas amostras de 300 localidades para análise laboratorial.

 

Apesar de se tratar de um método eficiente, a vigilância ambiental ainda pode “acertar ou errar”. Em 2014, aditou-se-lhe o modelo de elevação digital tornando-a muito mais precisa. Funciona recorrendo a mapas tridimensionais que ajudam as equipas a ajustar a localização das amostras colhidas para obter melhores resultados. A modelização também aponta com maior rigor que zonas podem estar afectadas se a análise de uma amostra acusar positivo para vírus da poliomielite.

 

Particularmente útil no isolamento de vírus da poliomielite derivado da vacina (cVDPV) em circulação, o modelo de elevação digital foi recentemente utilizado com sucesso em quatro cidades de Angola, onde há surtos repetidos, induzindo as equipas de vacinação a reagir com rapidez. Durante um surto de cólera no Sudão do Sul, a tecnologia foi igualmente utilizada com êxito na identificação da zona onde as crianças precisavam de ser vacinadas, o que permitiu direccionar a implementação de vacinas contra a cólera para esse grupo-alvo.

 

À medida que o poliovírus selvagem é erradicado e que os fundos diminuem, a vigilância ambiental – altamente sensível – passará a ser uma ferramenta essencial na detecção de cVDPV.

Vacinadores em Juba prepararam-se para uma campanha de vacinação aproveitando um Dia nacional da vacinação, durante uma campanha que visou 3,7 milhões de crianças no Sudão do Sul, 2017. ©️ UNICEF

5. eLQAS – acompanhamento electrónico da qualidade de campanhas de vacinação

Desde 2008, foram introduzidas no Programa da poliomielite relativo à Região Africana várias avaliações de qualidade. Dessas, a mais importante refere-se a um método de sondagem por lotes aplicado à garantia de qualidade (LQAS, do inglês lot quality assurance sampling), que mede a qualidade e a cobertura aproximada de actividades de vacinação suplementares, salientando ainda onde e porquê se falharam crianças. Tal como acontece em relação ao outras recolhas de dados, esta costumava ser feita manualmente. A cada fase pela qual os dados passam dos dados existiam igualmente riscos acrescidos de erro humano. 

 

Os questionários electrónicos permitem evitar essas insuficiências. Programado para ser usado em smartphones, o eLQAS é utilizado para identificar zonas e agregados familiares que foram omitidos durante campanhas de vacinação. Em 2013, quando se usou o eLQAS durante campanhas suplementares de vacinação no Sudão do Sul, os resultados deram uma análise muito mais rápida e detalhada do que os anteriores LQA em suporte papel. Essa informação foi depois utilizada para levar a cabo campanhas abrangentes assim como para melhorar a qualidade de campanhas posteriores. 

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